sexta-feira, 25 de abril de 2008

ROMANCES NA GAVETA E CRAVOS AO VENTO


Durante os 40 anos que durou o regime autoritário de Salazar (1889-1970) Portugal esteve submerso num suposto clima de estabilidade econômica. Durante o Estado Novo (1933-1974) o ditador português criou a União Nacional, partido único durante toda a vigência de seu império, e partiu para uma linha de ação econômica nacionalista autoritária, rompendo assim, muitos contatos na Europa e levou Portugal a um isolamento econômico, fiscal e alfandegário.

E o que tudo isso tem que ver (como dizem os portugueses) com a literatura? Tudo. Muitos autores portugueses durante meados dos anos 30 e parte dos 40, estavam interessados em uma literatura de ordem social, ou seja, o Neo-Realismo estava em ascensão e a crítica social estava na ordem do dia. Escritores como Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Alves Redol, Miguel Torga, Augusto Abelaira, Vergílio Ferreira e até José Saramago se vincularam a esta corrente, que além de defender os interesses de uma classe rural oprimida, também manifestava um intenso interesse de natureza socialista de lutar contra o autoritarismo de Salazar.

Diferente das correntes regionalistas dos anos 30 no Brasil, que na maioria dos casos retratava o ambiente urbano, o Neo-Relaismo português retratou na maioria das vezes as injustiças e mazelas do campo. Não foi por acaso que o Neo-Realismo teve como berço o Alentejo. Romances como Vindima (1945) de Miguel Torga, e Vagão "J" (1946) de Vergílio Ferreira não se concentram no Alentejo, e sim no Norte de Portugal, Douro e Serra da Estrela, mas têm influência direta dos autores alentejanos.

Durante os 40 anos de ditadura houve muita censura, muitos escritores foram proibidos de publicar seus livros, como Alexandre Pinheiro Torres, grande escritor e crítico literário que viveu a maior parte de sua vida auto-exilado em Cardif, em País de Gales. O seu romance Espingardas e Música Clássica (1987) escrito em 1962 só foi publicado 25 anos após a sua escrita. Segundo o próprio Torres, esse livro permaneceu literalmente engavetado por 25 anos. A censura perseguia principalmente autores que de certa forma foram ligados ao Neo-Realismo, mas não se limitava apenas a estes.

No início dos anos 70, ainda sob a vigência do Estado Novo, porém sem o ditador, morto em 1970, Portugal mantinha suas colônias na África e enviava constantemente soldados portugueses ao front, como uma massa de condenados a morrer numa guerra sangrenta e sem sentido. O ditador já não estava vivo, a derrocada em Luanda era iminente, e foi em meio a um final melancólico da guerra em Angola que Portugal viveu seus últimos dias de ditadura. Muitos escritores e artistas de várias áreas participaram da chamada Revolução dos Cravos, que derrubou de vez o regime salazarista no dia 25 de abril de 1974. O levante teve forte apoio de militares descontentes com a guerra em Angola e chegou ao seu ápice com a aceitação maciça da população. Foi uma manifestação pacífica, na qual centenas de pessoas tomaram as ruas com rosas e cravos nas mãos (daí Revolução dos Cravos).

A abertura política e econômica foi fundamental para a literatura e para as artes em geral em Portugal. Alexandre Pinheiro Torres é o exemplo categórico disso. É claro que mesmo durante o regime salazarista muitos autores contrários ao regime publicaram, inclusive o Neo-Realismo teve um apelo popular tão forte que os censores simplesmente não poderiam vetar todas as obras.Mas vários destes autores também eram constantemente perseguidos e tinham obras queimadas em praça pública.

Como todas as ditaduras, a de Portugal teve seus altos e baixos. De um lado um certo crescimento da produção nacional, mas por outro a falta de tolerância e de liberdade de expressão. O povo vivendo em meio do fogo cruzado entre comunistas e "reacionários" passou por tempos de obscuridade e medo. Há escritores que voltaram a publicar em Portugal, mas que nunca mais voltaram a viver em seu país, como Alexandre Pinheiro Torres e o crítico e ensaísta Eduardo Lourenço.

O 25 de abril em Portugal é lembrado e comemorado de formas diversas e controversas por quem viveu naqueles tempos e também por quem não esteve lá. Mas o fato é que é uma data importante como um todo, deixando de lado rivalidades pueris entre comunas e conservadores. O que não se pode esquecer é da boa literatura que foi produzida mesmo durante os anos de repressão, como um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos, Vergílio Ferreira, muitas vezes acusado por comunistas e esquerdinhas universitários de alienado. Esquecem eles do valor estético da obra de um autor como Vergílio Ferreira, de sua técnica narrativa apurada. Mas esse é o estigma de uma revolução, mesmo não sendo armada. O conflito ideológico no caso da Revolução dos Cravos evidencia-se de forma às vezes clara às vezes nem tanto, e por isso há de se levar em consideração a dicotomia ideológica e revolucionária. O 25 de abril é e foi isso. Eterna dicotomia na terra de Camões.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

25 DE ABRIL


E O 25 DE ABRIL?

E O 25 DE ABRIL?

AH!! ESSE 25 DE ABRIL...

O QUE NOS APROXIMA?

TIROS DE CANHÃO...URROS NO PALÁCIO.


HÁ DE SE LEVAR EM CONSIDERAÇÃO

QUE REACIONÁRIOS NUNCA EXISTIRAM,

E NUNCA EXISTIU A OPINIÃO

DAQUELES QUE OS JULGAVAM.

APENAS...

O 25 DE ABRIL.

CÂNTICO


TEMOS o odor e a cor que tem

A flor pendente dos ramos,

Pois somos virgens para além

Dos beijos que trocamos.


Só a nós nos é dado o Santo Graal

E vamos puros quando o amor nos chama;

Iguais perante o Bem, perante o Mal,

Temos asas de luz em mares de lama.


Tanto basta pra sermos celebrados:

Os nossos corpos, quando unidos, dão

O branco ao sol, o azul ao céu, o verde aos prados

E o ritmo de vida ao coração.


ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

terça-feira, 15 de abril de 2008

SOLICITAÇÃO À POESIA


VEM, Poesia, serena,

simples, casta, natural,

nesta meia tarde amena

de uma preguiça animal!


Vem, de cabelos floridos,

perfumada a benjoim,

dar aos meus cinco sentidos

o princípio, o meio e o fim!


Vem, solitária e esguia,

sem prenúncios de chegada.

Frágil coloração fria,

que adeje, sonhe - e mais nada...


Vem, doente do mistério

da tua visitação...

Ser diáfono e sidério

que floresce no meu chão!


DANIEL FILIPE

DO PÓ AO PÓ


Há alguns dias eu estava revirando alguns livros em minha estante e me deparei com um volume antigo de poesia portuguesa contemporânea, de 1970, com prefácio de David-Mourão Ferreira. Foi uma feliz surpresa, sendo que nem me lembrava de tal relíquia. Logo me pus a ler alguns poemas desordenadamente e com voracidade, era um apetite quase sexual. Descobri (sim, descobri) o grande Sebastião da Gama nesse exemplar, e seu fantástico poema CONDIÇÃO, que é uma síntese de sua curta, mas inquieta, obra poética.


São significativos também nomes como Marcos Leal, Luiz de Macedo, Fernando de Paços, Daniel Filipe. Vou postando alguns poemas desses autores durante a semana, assim os caros leitores poderão ir acompanhando a produção poética portuguesa entre as décadas de 50 e 70. Pelo menos uma pequena parte dela.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

CONDIÇÃO


CONSTRÓI ao menos

qualquer coisa efêmera.

Pois mais não podes ser,

sê ao menos efêmero.



Grava os passos na areia,

desenha sobre a estrada

teu vulto.

É melhor do que nada.



A desfazer-te o rastro

virá, o Mar, é certo.

Virá, é certo, a Noite,

beber a tua sombra.



Efêmero? Serás...

Mas presente

no Mar, eternamente;

na Noite, para sempre.



Sebastião da Gama (1924-1952)

sexta-feira, 4 de abril de 2008

A MARCA DO LOBO: ESTILHAÇOS DA PÓS-MODERNIDADE


Uma das marcas da modernidade é a ruptura com o tradicional, e se tratando de literatura, muitas vezes essa ruptura se evidencia de forma nada sutil. Atualmente se convencionou chamar as novas tendências artísticas de pós-modernas, que tratam exatamente de temáticas diversas, porém, a forma adquire um significado especial. É um ranço do movimento antropofágico que permeou as correntes estéticas do início do século XX, mas que na chamada pós-modernidade adquiriu proporções maiores.

Na literatura nomes como James Joyce, Virginia Woolf, T.S. Elliot e Marcel Proust produziram narrativas e textos poéticos que de certa forma apresentavam um formato novo de narrativa ou de poesia, causando dessa forma uma revolução nas artes em geral. A quebra com um narrador único e distante dá lugar a um movimento polifônico e experimental, mas é uma experimentação consciente e trabalhada que em momento algum cai no senso comum.

Muitos autores portugueses produziram também a chamada narrativa hiperbólica pós-moderna, criando assim, muitas vezes, diversos narradores em um único romance, por exemplo, autores como Augusto Abelaira em seu romance Bolor, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires e António Lobo Antunes, este último com uma marcada característica pós-moderna que se caracteriza pela desconstrução da forma clássica de romance e a imersão quase total num universo fragmentado e polifônico.

Lobo Antunes publica desde 1979, mesmo ano em que seu rival literário e ideológico, José Saramago, publica seu primeiro romance relevante, Levantado do Chão, e o psiquiatra que esteve em Angola como oficial do exército português encontrou em suas experiências de guerra temas constantes para sua literatura. Os Cus de Judas é seu primeiro romance e trata dos conflitos internos de um médico psiquiatra que retorna de Angola completamente mudado e enfrentando fortes embates existenciais. O universo sombrio e constantemente marcado por uma embriaguez física e intelectual de seus protagonistas tornam suas narrativas densas, pesadas e profundamente poéticas.


O romance O Esplendor de Portugal (1997) apresenta quatro narradores diferentes ao longo da narrativa. Trata-se da trajetória conflituosa e permeada de percalços de uma família de descendentes de portugueses que vai para Angola por motivos misteriosos e lá constituem família e prosperam como donos de terras. Mas a vida que levam é repleta por faltas morais graves e por carências de relações humanas e familiares, que dão à narrativa um tom amargo e irônico. Desde o pai, Amadeu, um alcoólatra que ignora as relações extra-matrimoniais da esposa Isilda, uma das narradoras, com um oficial da polícia de Luanda, até o filho epiléptico, Rui.

Os outros três narradores são seus filhos, Carlos, Rui e Clarisse, todos de certa forma apresentam características pessoais que fazem com que não se integrem na sociedade e vivam, desta maneira, numa espécie de labirinto no qual são impossibilitados de sair por conseqüência de suas próprias atitudes. Todos estão condenados a uma solidão irredutível que nenhum deles havia desejado, mas não fazem força alguma para mudar o quadro atual de suas vidas. A miséria que é vista por todos durante o tempo em que viveram em Luanda reflete também a miséria da condição humana, representada aqui pelo horror da guerra.

A narrativa fragmentada é construída de forma que cada narrador se integre ao outro, formando assim um exemplo clássico da mais bela prosa poética. A dureza dos acontecimentos é quebrada, às vezes, ao percebermos a linguagem que conduz os fatos, de forma que a dramaticidade da narrativa é tão forte que o leitor se sente tenso durante toda a leitura, mas essa dureza também é sublime e destaca-se pela forte supressão de imagens.

A falta de pontos, parágrafos e a ausência da norma padrão da linguagem são elementos típicos de Lobo Antunes, e o leitor assim é forçado a descobrir os significados das sentenças e dos períodos, quase sempre deixados à deriva para serem rigorosamente degustados pelo leitor. Prática essa típica da pós-modernidade. Num romance como esse, talvez a marca mais forte seja a presença arrebatadora de uma narrativa polifônica, que ao mesmo tempo em que exige do leitor um rigor maior, também dá mais espaços a sua prática como leitor-empírico. A fragmentação, a prosa poética e a experimentação formal são as marcas principais de António Lobo Antunes, e desse romance em especial. Lobo Antunes se propõe a uma construção narrativa rigorosa e metódica ao mesmo tempo em que a desconstrução de uma voz única de um protagonista se evidencia através da alteridade e do discurso híbrido.