quarta-feira, 17 de setembro de 2008

LIRISMO


"Depois dos gregos nunca um povo tão pequeno criou uma literatura tão grande" é uma afirmação de Aubrey Bell sobre a litera­tura portuguesa, que a coloca, pelo juízo de valor que encerra, em lugar de proeminência no conjunto das literaturas de expressão universal.

A relação entre uma literatura tão extensa e a dimensão quan­titativa reduzida do povo que a faz tem despertado a atenção dos que se voltam para o estudo da literatura portuguesa. A explicação para este fato tem sido buscada na índole subjetiva do povo - e do homem - português. Assim se explicaria a sua decisiva inclinação para a literatura e, em espe­cial, para a poesia. Teófilo Braga, um dos primeiros estudiosos a insistir no subjetivismo como caráter definidor do gênio português, afirma, em prefácio ao Parnaso Português Moderno, que "Em Portugal todos são poetas, uns em segredo, como um vício oculto; outros não passam dos limites efêmeros do jornalismo; outros alentam o fogo sagrado até aos vinte e cinco anos, como o sr. Herculano; outros têm a coragem de pro­duzir volumes, continuam a publicar versos depois de directores de secre­taria, depois de serem embaixadores e ministros."

Fidelino de Figueiredo, em Características da Literatura Portu­guesa, já aborda o problema por outro ângulo. Para ele, o necessário é que haja "elementos universais" no gênio nacional desse pequeno povo para a realização de uma grande e "nobre literatura".

A reduzida população portuguesa é invocada, modernamente, por autores como Óscar Lopes para justificar o que alguns consideram como limitações do gênio português para determinados aspectos das artes. Limitações estas que foram referidas também por Fidelino de Figueiredo, no citado estudo.

Comentando estas considerações, diz Óscar Lopes: "No domí­nio das Letras, segundo alguns, seríamos avessos ao teatro, à crítica esté­tica, à especulação filosófica, quem sabe se ao romance (pelo menos ao romance de observação externa); nas Artes, seríamos incapazes de criar uma escola nacional de pintura ou de música, noutros campos faltar-nos-iam o espírito de cooperação, a autodisciplina racional, a capa­cidade de abstracção e de síntese científicas."


(...)

Quanto ao caráter subjetivo da literatura portuguesa, seria possível estudá-lo do ponto de vista do profundo sentimentalismo refle­tido na literatura, esta quase sempre impregnada do "dom das lágrimas", na expressão de Moniz Barreto, ou do saudosismo, que, para Teixeira de Pascoaes, constitui a própria expressão da alma portuguesa. Um excerto, porém, de A Literatura Portuguesa , Expressão duma Cultura Nacional, de Jacinto do Prado Coelho, engloba estes e outros aspectos, e aponta para o lirismo como a expressão-síntese desta literatura:



Se tivermos em conta os autores que mais deti­damente enunciaram as características da literatura portuguesa, como Fidelino de Figueiredo, Aubrey Bell, António Sérgio, António Salgado Júnior e tam­bém algumas achegas de historiadores, etnólogos e ensaístas, como Jaime Cortesão, Jorge Dias, etc., pode­remos talvez concluir que duas tónicas fundamentais individualizam a cultura e a literatura nacionais: o subjectivismo e a acção. No primeiro se filia, com efeito, a já proverbial inclinação lírica; e é forçoso reconhecer que o mais abundante caudal desta lite­ratura, de fins do século XII aos nossos dias, tem sido o da poesia lírica - poesia amorosa - terna ou apaixona­da, obsessiva, nostálgica. Em parte por esta feição literária, comum à Galiza e a Portugal, e ainda porven­tura porque a mesma índole se manifesta no plano da vida quotidiana, nos séculos XVI e XVII Galegos e Portugueses tinham fama, na Península, de senti­mentais e muito atreitos ao amor - fama que, por seu turno, havia de projectar-se na literatura.



(BUENO, Jayme Ferreira. Távola Redonda: uma experiência lírica. Curitiba: Champagnat, 1983, p. 1-3)

sábado, 26 de julho de 2008

JOHN FANTE TRABALHA NO ESQUIMÓ: UM AGRADÁVEL SOPRO DIFUSO



Rogério Pereira, diretor e editor do jornal curitibano de literatura Rascunho, certa vez disse que a pior coisa do mundo é ter amigos escritores, ou conhecidos escritores. Claro, para um crítico literário. O motivo que Rogério Pereira alega é que se um crítico literário tem amigos ou conhecidos escritores, ele tende a mentir sobre o livro que está analisando, ou fala a verdade e perde a amizade. É uma encruzilhada, de fato. Mas não quando o amigo ou conhecido é um grande escritor. Meu caso, que sou conhecido, e imagino que agora já possa me considerar amigo, do escritor carioca Mariel Reis.

Meu contato com Mariel começou através deste singelo blog, quando ele me enviou um e-mail elogiando um artigo que eu havia escrito sobre Raul Brandão. A partir de então começamos a trocar algumas idéias, alguns contos e Mariel me disse que tinha um livro inédito de contos, o qual me enviou para ler e dar meu parecer. Como na época eu estava pesquisando para minha monografia no curso de especialização em literatura brasileira, fui deixando a leitura do livro de Mariel pra depois. Não sabia eu o que estava perdendo. Eu podia ter deixado um Alfredo Bosi pra depois, um Candido, um Stuart Hall.

O volume leva o título de John Fante trabalha no Esquimó (2008), e reúne 16 contos. Mariel aborda temas ligados à classe média brasileira, como solidão, a violência urbana, carência moral entre os membros da sociedade, e em vários dos contos se aproxima muito do escritor curitibano Dalton Trevisan. Mariel leva muito em consideração o espaço urbano, fazendo deste, um ambiente degradado, ocupado por párias e elementos marginalizados, como no conto A Gorda, que conta a aventura sádica de um garoto de programa com uma cliente extremamente gorda, repulsiva em sua imagem e em seu caráter.

Os segmentos de imagens que Mariel trabalha nessa narrativa sombria é de extremo bom gosto e mostra um escritor que domina perfeitamente a técnica do conto, que, sendo uma narrativa curta, tende a propiciar ao leitor uma tensão que está na iminência de acabar. Mas não acaba com o final, e isso torna o conto mais saboroso ainda.

Os contos de Mariel, além de mostrarem tipos estranhos e grotescos, também apresentam uma atmosfera fantástica, bem ao estilo de Murilo Rubião e Moacyr Scliar. O conto Jonas, a Baleia, ao mesmo tempo em que faz alusão ao profeta bíblico, faz alusão também à Metamorfose, de Kafka, pois nesse conto um jovem acorda transformado numa baleia. E o mais interessante, para confirmar que Mariel pratica também literatura fantástica, é que no final da narrativa, assim com Gregor Samsa, Jonas é visto dessa forma, e seu vizinho não estranha o fato de haver uma baleia no quarto e até considera o olhar do animal semelhante ao de Jonas, e dessa maneira o absurdo é aceito dentro do universo da ficção. É o que Todorov chama de sobrenatural aceito, em seu livro Introdução à Literatura Fantástica.

No conto A Viagem, mais uma vez Mariel encontra na violência urbana tema para sua narrativa. Mas não se resume a isso. Nesse conto há um narrador em primeira pessoa (outra característica de Mariel é oscilar muito o seu foco narrativo), que é um assaltante de ônibus num ambiente periférico no Rio de Janeiro, mas é um assaltante que tece considerações metafísicas sobre os atos criminosos que comete. Ele está cansado do trabalho que exerce, e quer parar. Esse conto é um exemplo de que a literatura de Mariel Reis não pode ser vista como pessimista, mas sim como realista, e até há uma pitada (contida, claro) de esperança.

Em todos os contos, ou em quase todos, Mariel além de construir personagens de personalidade forte e decadentes moralmente, também leva muito em consideração o espaço. O espaço em todo o livro é muito bem trabalhado, e em algumas das narrativas exerce influência direta sobre os personagens. Como acontece no conto O Prisioneiro, entre os melhores do volume. Há nesse conto referências diretas à sociedade e às suas mazelas, como o caso da violência e da superlotação dos presídios. O protagonista narrador, um presidiário que espera sua liberdade, é um indivíduo que já se acostumou à sua atual situação, e dessa maneira, é alguém totalmente assimilado ao meio ao qual pertence. Mesmo não querendo permanecer preso, não se sente capaz de retornar à sociedade e as considerações filosóficas que tece é de extrema beleza e profundidade.

O conto Por Mil Demônios é o maior exemplo de literatura fantástica que há no livro. É dividido em oito partes, e conta a história de uma moça que carrega em seu ombro esquerdo um demônio. Depois percebemos que o demônio carrega em seus ombros homúnculos. É uma metáfora sobre a conturbada relação interpessoal, pois todos estão (nesse conto) fadados a sucumbir aos próprios demônios e também aos demônios dos outros.

Em relação à técnica de Mariel nesse conto, é interessante apontar que há mais de um narrador, e com isso ele demonstra bom domínio da técnica narrativa. Mariel durante a composição da narração soube realizar as mudanças narrativas na hora certa, sem experimentalismos baratos e amadores. Há uma forte presença de um discurso polifônico nesse conto, que em muitos momentos exige atenção dobrada do leitor. Também há de se levar em consideração a presença de um narrador onisciente e onipresente, que narra mas não participa dos fatos narrados. É uma inteligente manobra de mudança do foco narrativo.

A opção pela narrativa auto-diegética (em primeira pessoa) dá ao escritor uma ferramenta a mais para trabalhar a construção de seus personagens (seu interior), pois o foco narrativo em primeira pessoa permite a exploração do fluxo de consciência. Junto com isso, há a opção de Mariel pela ausência de diálogos, fato que permite uma realização quase completa do fluxo de consciência. Esse fato se evidencia mais naqueles contos que têm como tema o espaço e o ambiente urbano.

Como um todo, Mariel Reis fez em John Fante trabalha no Esquimó um trabalho notável. Mesmo discordando de Mariel em algumas escolhas narrativas em alguns dos contos, seu livro é de extrema importância para o cenário literário atual, principalmente em relação ao conto, que estava precisando de um sopro de vida. Mariel Reis consegue isso. E assim, quem sabe, como no conto que dá título ao livro, não passemos a ver o rosto de Mariel em cada esquina do Rio de Janeiro, sempre à procura do autor preferido.


sábado, 19 de julho de 2008

OSTRACISMO LITERÁRIO I: Da progressão geométrica da estupidez ao naufrágio das ilusões



Diversos autores na história desistiram da literatura. Publicaram um ou mais livros e definitivamente desistiram da ficção. Caso de Raduan Nassar, autor de Lavoura Arcaica (1975), que depois da escrita dessa obra, nunca mais escreveu nada inédito. Publicou o romance Um Copo de Cólera (1977), livro escrito em 1970, e o volume de contos Menina a Caminho (1997), que reúne contos escritos entre 1960 e 1970, portanto, todas as obras que Nassar publicou depois de Lavoura Arcaica, foram escritas antes. É uma biografia no mínimo curiosa.

Outro autor que passou pela mesma síndrome da abstinência literária foi Carlos Heitor Cony, que depois de publicar Pilatos (1973), ficou 21 anos sem publicar ficção. Gabriel Garcia Márquez, Patrick Sussekind, Bruno Seabra (autor brasileiro do século XIX, totalmente esquecido, que publicou um único romance, Paulo), também são autores que de uma maneira ou de outra ficaram anos sem publicar ou simplesmente desistiram de fato da literatura.

No Brasil, talvez o maior exemplo de um autor que tenha desistido da literatura é Diogo Mainardi. Atualmente Mainardi publica semanalmente uma crônica na revista Veja, na qual aborda diversos temas do cotidiano brasileiro, principalmente sua aversão ao governo Lula. Mainardi, antes de escrever sobre política, publicou quatro romances: Malthus (1989), Arquipélago (1992), Polígono das Secas (1995) e Contra o Brasil (1998). Nesse texto escreverei, caro leitor, sobre os dois primeiros romances, e na sequência sobre os dois últimos.

Malthus é um texto experimental, nem tanto em sua forma, mas em seu conteúdo. Malthus apresenta ao leitor, normalmente perplexo, como escreveu Mário Sabino na orelha da segunda edição do romance, a progressão geométrica da estupidez. É um romance que não apresenta enredo linear e lógico, nem personagens reais. Parece que toda a ação é um delírio do protagonista Loyola y Loyola, que através de toda a narrativa dá golpes em diversos lugares diferentes, e assim não pára em nenhum deles.

O título do romance também causa estranhamento, pois não é um livro que fala sobre o economista do século XIX, mas Mainardi faz aqui uma fina e sutil alusão à sua teoria, que através das atitudes insensatas e grotescas dos personagens, como a D. Robalinho, os magistrados, Ovas Negrão, a colocam em prática, porém, é claro, às avessas. E dessa maneira o breve romance se encerra, sem um aparente significado lógico, mas cabe ao leitor, que deve ficar muito atento à narrativa, pois esta está repleta de armadilhas, descobrir o emaranhado de insensatez da condição humana, pois é disso que trata o romance. Em Malthus, ao mesmo tempo em que Mainardi atinge alto nível em sua narrativa, também peca pelo excesso de experimentalismo, fato que torna o texto maçante em determinados momentos.

Fato que não ocorre no seu livro Arquipélago, segundo romance da série, que apresenta um escritor muito mais maduro, dominando mais a técnica narrativa e muito mais erudito. Apesar do aparente tom de galhofa e deboche do romance, Diogo Mainardi constrói uma narrativa saborosa, à maneira de Swift e Voltaire. É um texto que faz alusão a autores que de certa forma, em determinados momentos de suas vidas, se encontraram em situações em que foram obrigados (ou não) a desembarcar em ilhas, como foi o caso de Rousseau, no verídico incidente na ilha de Saint-Pierre em 1765, Platão em Siracusa, São João em Patmos e Thomas More, mas More criou uma ilha imaginária em sua Utopia.

O romance é narrado em primeira pessoa, e o narrador-protagonista é um anônimo que juntamente com outros desabrigados encontra abrigo na cúpula de uma igreja, único ponto que não fora submerso depois do desmoronamento de uma barragem de uma usina hidrelétrica. A partir desse incidente o protagonista passa a ver em cada acontecimento do cotidiano na cúpula uma alusão a elementos da história ou da filosofia. Portanto, o protagonista se entrega a uma espécie de ócio criativo, e passa a analisar cada situação em que ele e os seus companheiros desabrigados se encontram, do ponto de vista filosófico de outros autores. E nessa viagem que ele se submete, e submete os outros, vai notando uma aparente falta de sentido naquilo que estão fazendo (alusão à vida real?) e ao passo em que o tempo vai passando, os desabrigados o elegem o legislador da ilha e imploram que o protagonista lhes imponha atividades sem sentido algum, apenas para terem o que fazer.

A narrativa se desenvolve em uma atmosfera onírica, como em Malthus, mas durante sua composição o autor alcançou um nível muito alto dentro da literatura brasileira, e fez de Arquipélago um exemplo de literatura da mais elevada qualidade. Entre alguns capítulos, Mainardi encaixa dentro do corpo do romance pequenos ensaios sobre os filósofos que o livro faz menção, falando assim das suas desventuras nas ilhas pelas quais passaram, ou criaram. E as atitudes do protagonista o levam, dessa maneira, a ser jogado no mar pelos desabrigados insurgentes, depois é deposto e substituído por outro líder, mas depois de tantos obstáculos, os desabrigados percebem que suas vidas não têm sentido se não o tiverem como líder. É uma alfinetada no mito que foi criado sobre grandes autores da história e o público leitor também, como pessoas vazias e sem pensamento próprio.

No final do romance o protagonista finalmente sai da cúpula numa jangada com outros desabrigados, e dessa maneira tentam alcançar terra firme, mas só o protagonista o consegue, pois os ouros, ao longo da viagem, foram padecendo de formas diversas. O último capítulo aqui é muito significativo, pois resume muitas considerações sobre o romance e sobre o título. Pulando de uma ilha para outra, o protagonista tenta encontrar um lugar que lhe sirva como fonte de análise filosófica e metafísica. Não encontrando nenhum lugar assim (na baía de Guanabara), diz o protagonista:

Ao sair da baía de Guanabara, iria seguir em direção ao norte, analisando uma a uma todas as ilhas que encontrasse. Não tinha nada melhor a fazer.

Dessa forma se encerra o ciclo do protagonista, mas agora está em terra firme, metáfora que pode indicar o amadurecimento de sua filosofia, e que talvez encontre as respostas que procura. As diversas influências dos filósofos (Rousseau, Thomas More, Platão) cada um simbolizado por uma ilha distinta da outra, dá sentido ao título do romance. É mais um arquipélago de idéias do que de ilhas. E é na busca por essas ilhas, ou por esse arquipélago, que o protagonista anônimo elabora a sua filosofia.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

O ESCAFANDRO E A BORBOLETA: A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER


Assistir a um bom filme é sempre uma experiência interessante, mas assistir a um excelente filme cult é uma experiência surreal. Me refiro ao filme francês O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon) de Julian Schnabel. O longa concorreu a quatro indicações ao Oscar e ganhou alguns prêmios em Cannes, como melhor diretor e o Grande Prêmio Técnico.

O protagonista, Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric), é um jornalista de 43 anos que sofre um acidente vascular cerebral e fica em estado vegetativo, podendo mexer apenas seu olho esquerdo. O início do filme mostra Jean-Do abrindo seu olho e os médicos falando com ele, mas durante os primeiros 30 minutos do filme seu rosto não aparece, e a visão que temos é a do próprio Bauby, aprendendo o sinal que as médicas ensinam a ele, que consiste em identificar as letras do alfabeto através de uma piscada para sim e duas para não. E dessa forma ele vai construindo palavras, sentenças e parágrafos completos.

A sensação do espectador é de tensão durante todo o filme. Muito dessa tensão se deve ao fato da paisagem ser fundamental para o significado da borboleta no título do filme, que indica e/ou sugere a sensação de liberdade, de leveza, pois o vôo da borboleta aqui remete à vontade de Bauby de se livrar do peso de sua existência (o escafandro) e o hospital no qual Bauby se recupera fica numa praia afastada na França, em frente ao mar. O ambiente para a sensação de submersão do escafandro se dá de maneira dramática quando Bauby se depara com a imensidão do mar diante de seu olho (seu olho direito fora costurado, pois não podia fechá-lo) e a sequência de imagens que segue é belíssima.

Diante de um quadro irreversível, Bauby em monólogos interiores irredutíveis, aceita sua realidade e constata que possui duas qualidades que não perdeu com o derrame: a permanência de sua memória e de sua imaginação. É nessa perspectiva que o filme alcança uma beleza rara, pois Bauby em vários momentos se imagina em diversos lugares em que esteve ou que gostaria de ter visitado, como na cena em que aparece em um restaurante com sua esposa em um verdadeiro banquete, que serve de metáfora antropofágica.

A evocação de sua infância com seu pai na estação de trem é de uma beleza incrível, mas no plano da memória, o fato mais importante é uma cena em que já adulto conversa com seu pai (Max von Sydow) enquanto Bauby o ajuda a se barbear, e nessa prática mantêm um diálogo que na memória de Bauby, tempos depois, se torna fundamental para a compreensão de sua situação, pois ele se dá conta que não pode voltar atrás e tentar uma espécie de reconciliação com o pai, e isso o tortura de maneira tão forte que o leva mais fundo ainda ao desespero.

A religião aparece no filme de uma forma controversa, pois Bauby era ateu, e sua amante, Inés, aparece no filme como católica fervorosa. Bauby chega a sentir repulsa por uma imagem da Virgem Maria que Inés comprara numa viagem que fizeram ao interior da França, e essa lembrança o invade de forma que em certo momento o faz rever alguns conceitos sobre divindade, mas o seu ateísmo predomina de forma tão forte, que o protagonista até zomba da suposta existência de Deus. A sua relação com a religião se aproxima da náusea sartreana, como aliás se aproxima todo seu modo de pensar e de agir, negando a existência de um ser superior e transferindo essa divindade celeste à própria condição do ser humano, que é pobre e mísera.

A jornada interior de Bauby é repleta por imagens fortes, cores, dores e por uma intensa vontade de viver, fato que mais uma vez o aproxima à náusea sartreana. Para o Existencialismo, além da natureza humana ser anulada por consequência da inexistência de divindade, tudo que vai contra à vida não faz sentido, portanto, seu atual estado deve ser breve e passageiro, e o contato com a palavra, que no caso dele não é a palavra escrita, mas mesmo assim é fonte de vida e de uma busca metafísica pelo seu significado.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

ROMANCES NA GAVETA E CRAVOS AO VENTO


Durante os 40 anos que durou o regime autoritário de Salazar (1889-1970) Portugal esteve submerso num suposto clima de estabilidade econômica. Durante o Estado Novo (1933-1974) o ditador português criou a União Nacional, partido único durante toda a vigência de seu império, e partiu para uma linha de ação econômica nacionalista autoritária, rompendo assim, muitos contatos na Europa e levou Portugal a um isolamento econômico, fiscal e alfandegário.

E o que tudo isso tem que ver (como dizem os portugueses) com a literatura? Tudo. Muitos autores portugueses durante meados dos anos 30 e parte dos 40, estavam interessados em uma literatura de ordem social, ou seja, o Neo-Realismo estava em ascensão e a crítica social estava na ordem do dia. Escritores como Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Alves Redol, Miguel Torga, Augusto Abelaira, Vergílio Ferreira e até José Saramago se vincularam a esta corrente, que além de defender os interesses de uma classe rural oprimida, também manifestava um intenso interesse de natureza socialista de lutar contra o autoritarismo de Salazar.

Diferente das correntes regionalistas dos anos 30 no Brasil, que na maioria dos casos retratava o ambiente urbano, o Neo-Relaismo português retratou na maioria das vezes as injustiças e mazelas do campo. Não foi por acaso que o Neo-Realismo teve como berço o Alentejo. Romances como Vindima (1945) de Miguel Torga, e Vagão "J" (1946) de Vergílio Ferreira não se concentram no Alentejo, e sim no Norte de Portugal, Douro e Serra da Estrela, mas têm influência direta dos autores alentejanos.

Durante os 40 anos de ditadura houve muita censura, muitos escritores foram proibidos de publicar seus livros, como Alexandre Pinheiro Torres, grande escritor e crítico literário que viveu a maior parte de sua vida auto-exilado em Cardif, em País de Gales. O seu romance Espingardas e Música Clássica (1987) escrito em 1962 só foi publicado 25 anos após a sua escrita. Segundo o próprio Torres, esse livro permaneceu literalmente engavetado por 25 anos. A censura perseguia principalmente autores que de certa forma foram ligados ao Neo-Realismo, mas não se limitava apenas a estes.

No início dos anos 70, ainda sob a vigência do Estado Novo, porém sem o ditador, morto em 1970, Portugal mantinha suas colônias na África e enviava constantemente soldados portugueses ao front, como uma massa de condenados a morrer numa guerra sangrenta e sem sentido. O ditador já não estava vivo, a derrocada em Luanda era iminente, e foi em meio a um final melancólico da guerra em Angola que Portugal viveu seus últimos dias de ditadura. Muitos escritores e artistas de várias áreas participaram da chamada Revolução dos Cravos, que derrubou de vez o regime salazarista no dia 25 de abril de 1974. O levante teve forte apoio de militares descontentes com a guerra em Angola e chegou ao seu ápice com a aceitação maciça da população. Foi uma manifestação pacífica, na qual centenas de pessoas tomaram as ruas com rosas e cravos nas mãos (daí Revolução dos Cravos).

A abertura política e econômica foi fundamental para a literatura e para as artes em geral em Portugal. Alexandre Pinheiro Torres é o exemplo categórico disso. É claro que mesmo durante o regime salazarista muitos autores contrários ao regime publicaram, inclusive o Neo-Realismo teve um apelo popular tão forte que os censores simplesmente não poderiam vetar todas as obras.Mas vários destes autores também eram constantemente perseguidos e tinham obras queimadas em praça pública.

Como todas as ditaduras, a de Portugal teve seus altos e baixos. De um lado um certo crescimento da produção nacional, mas por outro a falta de tolerância e de liberdade de expressão. O povo vivendo em meio do fogo cruzado entre comunistas e "reacionários" passou por tempos de obscuridade e medo. Há escritores que voltaram a publicar em Portugal, mas que nunca mais voltaram a viver em seu país, como Alexandre Pinheiro Torres e o crítico e ensaísta Eduardo Lourenço.

O 25 de abril em Portugal é lembrado e comemorado de formas diversas e controversas por quem viveu naqueles tempos e também por quem não esteve lá. Mas o fato é que é uma data importante como um todo, deixando de lado rivalidades pueris entre comunas e conservadores. O que não se pode esquecer é da boa literatura que foi produzida mesmo durante os anos de repressão, como um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos, Vergílio Ferreira, muitas vezes acusado por comunistas e esquerdinhas universitários de alienado. Esquecem eles do valor estético da obra de um autor como Vergílio Ferreira, de sua técnica narrativa apurada. Mas esse é o estigma de uma revolução, mesmo não sendo armada. O conflito ideológico no caso da Revolução dos Cravos evidencia-se de forma às vezes clara às vezes nem tanto, e por isso há de se levar em consideração a dicotomia ideológica e revolucionária. O 25 de abril é e foi isso. Eterna dicotomia na terra de Camões.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

25 DE ABRIL


E O 25 DE ABRIL?

E O 25 DE ABRIL?

AH!! ESSE 25 DE ABRIL...

O QUE NOS APROXIMA?

TIROS DE CANHÃO...URROS NO PALÁCIO.


HÁ DE SE LEVAR EM CONSIDERAÇÃO

QUE REACIONÁRIOS NUNCA EXISTIRAM,

E NUNCA EXISTIU A OPINIÃO

DAQUELES QUE OS JULGAVAM.

APENAS...

O 25 DE ABRIL.

CÂNTICO


TEMOS o odor e a cor que tem

A flor pendente dos ramos,

Pois somos virgens para além

Dos beijos que trocamos.


Só a nós nos é dado o Santo Graal

E vamos puros quando o amor nos chama;

Iguais perante o Bem, perante o Mal,

Temos asas de luz em mares de lama.


Tanto basta pra sermos celebrados:

Os nossos corpos, quando unidos, dão

O branco ao sol, o azul ao céu, o verde aos prados

E o ritmo de vida ao coração.


ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA