segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A REVISTA TÁVOLA REDONDA E A PINTURA COMO POESIA




Jayme Ferreira Bueno*


Na Arte Poética, Horácio (I séc. A. C.) afirmava: “ut pictura poesis”, algo como “como a pintura, é a poesia”, que se pode simplificar para “pintura é também poesia”. Mesmo sem um significado estrutural próprio, a expressão veio a ser interpretada como um princípio de similaridade entre a pintura e poesia. Como tanto a pintura como a poesia, ambas podem retratar a realidade e assim coincidir com o que afirmou Aristóteles em sua Poética. Como se sabe a Poética baseia-se no princípio da imitação, a mimese.

O princípio de similaridade entre poesia e pintura volta a ser reafirmado no Parnasianismo. Os poetas dessa estética procuravam unir a poesia à pintura e criavam verdadeiros painéis. No Brasil, Alberto de Oliveira, por exemplo, no Soneto “Vaso Chinês”, em que descreve com tantas minúcias que o poema se torna visual. Nestes versos, pode-se observar a aproximação entre pintura e poesia:

“Estranho mimo aquele vaso! (...) / Fino artista chinês, enamorado, / Nele pusera o coração doentio / Em rubras flores de um sutil lavrado, / Na tinta ardente, de um calor sombrio. / Mas, talvez por contraste à desventura, / Quem o sabe?... de um velho mandarim / Também lá estava a singular figura. / Que arte em pintá-la! (...)”.

No Modernismo com suas Vanguardas, as relações entre ambas as artes estreitam-se a ponto de obras ou poemas pretenderem retratar quadros ou situações próprias da pintura, como é o caso dos caligramas, de Apollinaire. O poeta francês pretendia estabelecer a fusão da expressão literária com a expressão plástica.

Essa tentativa ressurge ainda com mais força na segunda metade do século XX, com o movimento da Poesia Concreta, iniciada no Brasil em 1950. O Concretismo, que pregava a diminuição da importância do discurso em prol da figura plástica do poema.

Na crítica fenomenológica, que teve sua força por volta dos anos 60, Mikel Dufrenne, em seu livro O Poético, expõe: “pode-se dizer que uma tela ou um monumento introduzem em nós um estado poético”. Portanto, um quadro pintado ou um monumento erigido em praça pública podem nos levar a usufruir a poesia, porque ela pode estar contida na natureza, nas coisas e nas pessoas. Afirma ainda Dufrenne que, na natureza, a poesia pode estar em uma bela paisagem, num belo pôr do sol; nas coisas, pode aparecer em pinturas e estátuas; e em pessoas, pode brilhar no olhar da pessoa amada.

A revista Távola Redonda, nos anos 50, em Portugal, busca também essa aproximação entre pintura, desenho e poesia. Desse modo, ilustrava as páginas de cada fascículo com desenhos dos próprios poetas colaboradores, como António Manuel Couto Viana, António Ramos, António Vaz Pereira, João Mattoso, João Santiago, José Régio e do seu irmão, artista plástico, Julio.
Para ilustração (no início do texto), apresentamos uma figura da página 5, Fascículo 2.



Jayme Ferreira Bueno* é professor de Literatura Portuguesa e publicou Távola Redonda: uma experiência lírica, que resultou da tese de doutorado em Letras na Universidade de São Paulo.




terça-feira, 23 de setembro de 2008

OSTRACISMO LITERÁRIO II: na diocese anti-nacionalista nonsense


Muito do que se faz e do que se fala hoje no Brasil, e muito no âmbito cultural, é pura retórica nacionalista, como se tudo fosse sublime só porque “temos que exaltar o que é nosso”. A maior parte das idéias prontas que tanto atalhufam as academias brasileiras são desse tipo. De Gilberto Freyre a Antonio Quartin de Morais. Como diria Paulo Francis, “um bando de comunistas limonada”.

Depois de algumas semanas volto a falar aqui no blog sobre Diogo Mainardi. Da primeira vez analisei seus dois primeiros romances, Malthus (1989) e Arquipélago (1992). Neste texto analisarei os dois últimos, Polígono das Secas (1995) e Contra o Brasil (1998), o melhor dos quatro. Mas, voltando ao ufanismo hipócrita e idiota que definha o nível intelectual dos acadêmicos brasileiros, Diogo Mainardi, com seu terceiro romance, Polígono das Secas, desfere golpes ferozes contra o imaginário nacional tão difundido e idealizado pala literatura regionalista. Como “o povo nordestino é batalhador, sofrido e heróico”. Para Diogo, a travessia de Riobaldo pelo sertão mineiro é tratada por todos como se fosse algo próximo às cruzadas. A pobreza é venerada na literatura nacional.

O leitmotiv de Polígono das Secas, e também de Contra o Brasil, é a derrocada de quase todas as teorias e colocações lisonjeiras acerca do Brasil, e o autor quer defender a tese de que tais teorias, ditados e pensamentos não passam de lugares comuns e de clichês nacionalistas estúpidos.

Em Polígono das Secas, um serial killer atravessa o polígono das secas no nordeste brasileiro espalhando por onde passa seu veneno, com o intuito de exterminar todas as mulheres com o nome de Catarina Rosa. Ao longo de sua jornada, o untor (como é denominado por Mainardi), se depara com vários tipos conhecidos na literatura regionalista nordestina, como o retirante que busca melhores condições na cidade grande; o pai que carrega o filho morto nos braços em busca de um enterro decente; o político corrupto e autoritário que manda matar seus oponentes; o pistoleiro que mata por dinheiro. Todas essas figuras são mostradas na literatura brasileira de forma idealizada.

Mainardi em sua narrativa, além de desmistificar esses estereótipos, zomba de tais figuras, transformando o pai que carrega o filho morto pelo sertão de um pobre herói sofredor em um interesseiro que vende o corpo do filho para o assassino, pois o untor retira parte de seu unto venenoso da saliva de moribundos. (Seria isso uma ironia às nossas comodities?). Transforma o mesmo personagem, que se chama Manoel Vitorino, de um solícito cidadão brasileiro que iria enterrar Catarina Rosa, em um necrófilo sem escrúpulos que vai agindo por todo o sertão. E dessa maneira os mitos vão sendo desmascarados por Diogo Mainardi durante toda a narrativa. Também é interessante ressaltar que o narrador, em terceira pessoa, conforme os capítulos vão se sucedendo, vai manifestando sua opinião acerca da literatura nacional, como se fosse um Super Ego de Mainardi.

Os autores sertanejos tendem a atribuir um significado para cada evento da vida de seus personagens.

E é nessa mesma atmosfera nonsense de Polígono das Secas, que Mainardi cria Pimenta Bueno, protagonista de Contra o Brasil. Pimenta Bueno é um sujeito desprovido de qualquer boa intenção e com um repertório farto de impropérios contra o Brasil. Há nesse romance uma lista considerável de citações de vários autores e de personagens da história que estiveram no Brasil e desferiram violentos golpes verbais contra a pátria e o povo tupiniquim. Pimenta Bueno tem o trabalho apenas de citar esses autores (Claude Levi-Strauss, Charles Darwin, Evelyn Waugh), e de manifestar sua sórdida, para seus interlocutores, opinião.

É interessante quando Pimenta Bueno pergunta a qualquer um de seus interlocutores se conhece tal autor, a resposta é sempre a mesma: “não”. Diogo com isso zomba da ignorância dos brasileiros de um modo geral, com uma tristeza, certamente, mas com muito bom humor.

A trama de Contra o Brasil começa quando Pimenta Bueno, herdeiro de um cinema abandonado, agora lar de mendigos, ateia fogo à sua antiga propriedade e foge para o interior do Brasil. Chegando em Mato Grosso, decide realizar o mesmo trajeto feito por Strauss na década de 30, através da linha telegráfica do Marechal Rondon. O objetivo de Pimenta Bueno é chegar à tribo dos nambiquara, e é o que acontece. Mas o que ele encontra é bem diferente do que estava procurando. Ao invés de nambiquaras primitivos, como aqueles com os quais Strauss havia convivido e estudado, encontra uma tribo de índios assimilados e submissos, que se submetem a todo tipo de capricho e de canalhice impostas por Pimenta Bueno.

Nessa sua passagem pela tribo dos nambiquara, Pimenta Bueno pretende desenvolver a tese de que os brasileiros não têm identidade. Os índios nambiquara, que ele imaginava fossem os últimos índios ainda selvagens, já não o eram. Na tribo já havia várias das características comuns na sociedade civilizada, como a prostituição, corrupção, ignorância e promiscuidade. A tribo na qual Pimenta Bueno vive por algum tempo funciona como uma espécie de microcosmo do Brasil, com todas as suas deficiências e mazelas morais.

A diferença de um Pimenta Bueno para um Macunaíma, é que Pimenta Bueno, também herói sem caráter, não se esconde atrás de figuras nacionais feitas, ele mesmo procura, de forma direta, se auto destruir. Ele prova que todas suas imprecações contra o Brasil estão corretas, pois ao longo de sua jornada se depara com a ignorância, com a corrupção, com o comodismo do povo em geral, representado pelos mendigos do cinema, pelos índios e pelos parentes de sua mulher, Lavínia.

Um elemento interessante em Contra o Brasil, e que difere dos outros romances de Mainardi, é a sua forma. Todo o texto tem a forma de texto dramático. As falas dos personagens não são designadas por travessões, aspas ou pelo discurso indireto, mas pelo nome do personagem que fala. São rubricas que compõem todo o romance. O efeito que Diogo Mainardi buscou com essa forma curiosa foi a ironia. É mais um artifício que ele encontrou para zombar do leitor, como não podia ser diferente. Muito bem aproveitado por sinal, e que reforça ainda mais aquela atmosfera nonsense presente em toda narrativa e em seus outros romances.

Mais do que o narrador onisciente de Polígono das Secas, Pimenta Bueno parece ser de fato o Super Ego de Diogo Mainardi, mas só no que concerne às injúrias e difamações contra o Brasil e seus mitos ufanóides. De forma alguma em relação ao seu caráter. É uma pena que Diogo Mainardi tenha desistido da literatura. Prometeu nunca mais escrever sequer uma linha de ficção. Isso já faz dez anos. Mas esperemos que o seu Super Ego, Pimenta Bueno, o faça voltar atrás e simplesmente ignorar tudo o que disse. Afinal, Diogo também é brasileiro.

domingo, 21 de setembro de 2008

TÁVOLA REDONDA: uma homenagem a seus colaboradores


Jayme Ferreira Bueno*

Depois de mais de cinqüenta e oito anos, após o aparecimento, é viva a presença da revista Távola Redonda na memória de quem teve a felicidade de lê-la e estudá-la nos anos de 1980, quando ela ainda era novidade na crítica portuguesa e brasileira. Depois da publicação do trabalho Távola Redonda: uma experiência lírica, houve alguns encontros, mesmo no Brasil, mais especificamente em São Paulo para relembrar aqueles anos de poesia lírica em Portugal, que a revista teve o mérito de divulgar.

Na Casa de Mário de Andrade, no bairro da Barra Funda, na capital paulista, em 1989, quando a revista iria completar quarenta anos, compareceu grande parte dos poetas que fizeram a revista, com destaque para o fundador, David Mourão-Ferreira e um de seus diretores, Manuel Couto Viana. Foi uma comemoração que, no Brasil, realçou a importância daquelas Folhas de Poesia, publicadas em Lisboa no período de 1950 a 1954.

Apresentam-se a seguir exemplos da poesia que foi feita em Távola Redonda, naqueles anos de 1950, de intenso lirismo em uma literatura já lírica por excelência, como a que sempre se fez em Portugal.

1. DAVID MOURÃO-FERREIRA

O mais destacado dos poetas de Távola Redonda foi, sem dúvida, David Mourão-Ferreira, exatamente o idealizador, fundador e co-diretor da revista. Foi crítico de renome, escreveu sobre poesia, prosa e teatro, assim como produziu em todas essas áreas da literatura. Era poeta que conseguia manifestar conhecimento em seus poemas, para produzir uma poesia de intenso lirismo filtrado pela inteligência. Era, talvez, o único dessa geração que fazia uma poesia pensada, além de profundamente sentida, repleta de símbolos míticos, o que valorizava sobremodo toda a sua produção poética.

Na revista, David colaborou com textos críticos e notas explicativas. Sua intensa atividade como poeta fez que publicasse em Távola Redonda vinte e seis poemas, dos quais, em sua homenagem, aqui se reproduz este publicado no Fascículo 7, página 3:

A SECRETA VIAGEM

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,

ficamos nós os dois, parados, de mão dada...

Como podem só dois governar um navio?

Melhor é desistir, e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,

tornamo-nos reais, e de madeira, à proa ...

Figuras de legenda... Olhos vagos, perdidos...

Por entre nossas mãos, o verde Mar se escoa...

Aparentes senhores dum barco abandonado,

nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...

Aonde iremos ter? - Com frutos e pecado

Se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.

O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.

- Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,

a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!

2. ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

Foi um dos diretores de Távola Redonda. Sempre esteve ao lado de David Mourão-Ferreira na redação e no planejamento da revista. Como poeta foi muito criticado por setores da crítica portuguesa, que não perdoava o seu intenso lirismo, principalmente por aqueles da revista de cunho realista, Árvore dirigida e orientada esteticamente por António Ramos Rosa.

A poesia de António Manuel Couto Viana é lírica, musical, voltada para o “eu”. A sua temática é tradicional e talvez aí residisse o motivo das críticas. Apresenta em seus poemas o drama da consciência do envelhecer, a busca da recuperação do tempo pela poesia e a aceitação da solidão como auto-flagelo por haver falhado no amor. A poesia era também uma espécie de escapismo em que busca o último refúgio.

Em sua homenagem, aqui se reproduz um poema que foi publicado no Fascículo 15, página 4:

POESIA

Com mão alada procuro

O emocional desenho puro:

A linha é frágil; o verso é duro.

A claridade dos cimos!

Por alcançar nos desmedimos:

Turvam a fonte os humanos limos.

Fique meu gesto suspenso

Com o branco sinal dum lenço

Por sobre o mundo nocturno e imenso.

3. FERNANDA BOTELHO

Távola Redonda teve o mérito também de incluir entre seus fundadores algumas poetisas, o que não era comum naqueles anos de 1950. Assim, Fernanda Botelho participou do primeiro grupo da revista, aquele que a idealizou e a fundou. Poetisa, romancista, novelista, contista e tradutora, Fernanda Botelho vem de uma tradicional estirpe de escritores portugueses. É sobrinha-neta do grande romancista do Naturalismo português Abel Botelho e é também aparentada do grande prosador do Romantismo Camilo Castelo Branco.

Uma das novidades da poesia de Fernanda Botelho é trazer para seus poemas o emprego de imagens geometrizantes. Apresenta também formas tradicionais, como as bailias, formas da tradição medievais e medievalizantes da poesia portuguesa, uma profunda ironia em seus versos e a temática do amor impossível. Uma outra sua característica marcante é a poesia metapoética, o que a eleva à altura dos principais poetas da literatura portuguesa.

Como homenagem à poetisa, transcreve-se o poema do Fascículo 10, página 1:

AS COORDENADAS LÍRICAS

Desviou-se o paralelo um quase nada

e tudo escureceu:

era luz disfarçada em madrugada

a luz que me envolveu.

A geométrica forma de meus passos

procura um mar redondo.

Levo comigo, dentro dos meus braços,

oculto, todo o mundo.

Sozinha já não vou. Apenas fujo

às negras emboscadas.

Em cada esfera desenho o meu refúgio

- as minhas coordenadas.

4. MARIA MANUELA COUTO VIANA

Maria Manuela Couto Viana é irmã do poeta António Manuel Couto Viana. Além de poética, ela publicou o romance Raízes que não secam (1942), com o qual concorreu e obteve o prêmio do concurso “procura um Romancista”. Dedica-se mais freqüentemente à poesia infantil, como autora e tradutora. Publica também sobre folclore.

A sua poesia apresenta tendências neo-esteticistas pelo emprego de formas fixas, como a ode e o soneto. Volta-se para os símbolos das histórias infantis e das crendices populares e também a expressão de desejos íntimos colocados num plano idealizado, o que tornam a sua poesia profundamente lírica e pessoal.

Aqui a poetisa é homenageada com um poema publicado no Fascículo 6, na página 2:

REVELAÇÃO

Senta-te à cabeceira,

Dá-me teus finos dedos,

Destrua-se a fronteira

Dos íntimos segredos.

Branca face lunar

A estranha face tua.

Vejo-me em teu olhar

Desamparada e nua.

Do que me queres dizer

Adivinho o sentido:

Como é triste morrer

Antes de ter vivido!

Nem carícia nem voz,

Só pálpebra tombada.

Já, para além de nós,

Se alonga a dura estrada...

Que aroma de aloés

Neste silêncio arde!...

Agora sei quem és,

Mas agora é tão tarde...


Távola Redonda se filiou à poesia lírica portuguesa tradicional. Inscreveu-se na tendência poética que provinha de A Águia, de parte de Orpheu e principalmente da Presença, da qual recebeu forte influência tanto na poesia, como na orientação estética daquela revista, que havia predominado na década de 30. Assim, ela se opôs à poesia de vanguarda, como, por exemplo, a surrealista, e, de certo modo, contestou a poesia de orientação socializante, como a do Neo-Realismo.

Procurou sempre manter-se conservadora e apolítica, como já fora a própria Presença. Preferiu, portanto, uma atitude de não-participação ativa no momento histórico, a não ser por uma espécie de ceticismo, que foi característica de grande parte da poesia da década de cinqüenta. Esse sentimento cético em relação aos destinos políticos do mundo, e em especial de Portugal, aliado a um ideário de índole subjetiva, levou a revista rumo a uma retomada do lirismo.

A posição que Távola Redonda assume, assim, um aparente descompromisso com o social, o que leva a sua produção poética a se voltar para um neo-esteticismo, a ponto de fazer da temá­tica da própria poesia uma de suas preocupações fundamentais. Como decorrência dessa retomada do lirismo e da preocupação estética, Távola Redonda teve o mérito de fazer renascer em Portugal a atmosfera poética, ausente em grande parte da poesia da década anterior.

Os exemplos reproduzidos neste texto demonstram em parte esse lirismo que se mostrava aparente em todos os Fascículos de Távola Redonda.


Jayme Ferreira Bueno* é professor de Literatura Portuguesa e publicou Távola Redonda: uma experiência lírica, que resultou da tese de doutorado em Letras na Universidade de São Paulo.


quarta-feira, 17 de setembro de 2008

LIRISMO


"Depois dos gregos nunca um povo tão pequeno criou uma literatura tão grande" é uma afirmação de Aubrey Bell sobre a litera­tura portuguesa, que a coloca, pelo juízo de valor que encerra, em lugar de proeminência no conjunto das literaturas de expressão universal.

A relação entre uma literatura tão extensa e a dimensão quan­titativa reduzida do povo que a faz tem despertado a atenção dos que se voltam para o estudo da literatura portuguesa. A explicação para este fato tem sido buscada na índole subjetiva do povo - e do homem - português. Assim se explicaria a sua decisiva inclinação para a literatura e, em espe­cial, para a poesia. Teófilo Braga, um dos primeiros estudiosos a insistir no subjetivismo como caráter definidor do gênio português, afirma, em prefácio ao Parnaso Português Moderno, que "Em Portugal todos são poetas, uns em segredo, como um vício oculto; outros não passam dos limites efêmeros do jornalismo; outros alentam o fogo sagrado até aos vinte e cinco anos, como o sr. Herculano; outros têm a coragem de pro­duzir volumes, continuam a publicar versos depois de directores de secre­taria, depois de serem embaixadores e ministros."

Fidelino de Figueiredo, em Características da Literatura Portu­guesa, já aborda o problema por outro ângulo. Para ele, o necessário é que haja "elementos universais" no gênio nacional desse pequeno povo para a realização de uma grande e "nobre literatura".

A reduzida população portuguesa é invocada, modernamente, por autores como Óscar Lopes para justificar o que alguns consideram como limitações do gênio português para determinados aspectos das artes. Limitações estas que foram referidas também por Fidelino de Figueiredo, no citado estudo.

Comentando estas considerações, diz Óscar Lopes: "No domí­nio das Letras, segundo alguns, seríamos avessos ao teatro, à crítica esté­tica, à especulação filosófica, quem sabe se ao romance (pelo menos ao romance de observação externa); nas Artes, seríamos incapazes de criar uma escola nacional de pintura ou de música, noutros campos faltar-nos-iam o espírito de cooperação, a autodisciplina racional, a capa­cidade de abstracção e de síntese científicas."


(...)

Quanto ao caráter subjetivo da literatura portuguesa, seria possível estudá-lo do ponto de vista do profundo sentimentalismo refle­tido na literatura, esta quase sempre impregnada do "dom das lágrimas", na expressão de Moniz Barreto, ou do saudosismo, que, para Teixeira de Pascoaes, constitui a própria expressão da alma portuguesa. Um excerto, porém, de A Literatura Portuguesa , Expressão duma Cultura Nacional, de Jacinto do Prado Coelho, engloba estes e outros aspectos, e aponta para o lirismo como a expressão-síntese desta literatura:



Se tivermos em conta os autores que mais deti­damente enunciaram as características da literatura portuguesa, como Fidelino de Figueiredo, Aubrey Bell, António Sérgio, António Salgado Júnior e tam­bém algumas achegas de historiadores, etnólogos e ensaístas, como Jaime Cortesão, Jorge Dias, etc., pode­remos talvez concluir que duas tónicas fundamentais individualizam a cultura e a literatura nacionais: o subjectivismo e a acção. No primeiro se filia, com efeito, a já proverbial inclinação lírica; e é forçoso reconhecer que o mais abundante caudal desta lite­ratura, de fins do século XII aos nossos dias, tem sido o da poesia lírica - poesia amorosa - terna ou apaixona­da, obsessiva, nostálgica. Em parte por esta feição literária, comum à Galiza e a Portugal, e ainda porven­tura porque a mesma índole se manifesta no plano da vida quotidiana, nos séculos XVI e XVII Galegos e Portugueses tinham fama, na Península, de senti­mentais e muito atreitos ao amor - fama que, por seu turno, havia de projectar-se na literatura.



(BUENO, Jayme Ferreira. Távola Redonda: uma experiência lírica. Curitiba: Champagnat, 1983, p. 1-3)

sábado, 26 de julho de 2008

JOHN FANTE TRABALHA NO ESQUIMÓ: UM AGRADÁVEL SOPRO DIFUSO



Rogério Pereira, diretor e editor do jornal curitibano de literatura Rascunho, certa vez disse que a pior coisa do mundo é ter amigos escritores, ou conhecidos escritores. Claro, para um crítico literário. O motivo que Rogério Pereira alega é que se um crítico literário tem amigos ou conhecidos escritores, ele tende a mentir sobre o livro que está analisando, ou fala a verdade e perde a amizade. É uma encruzilhada, de fato. Mas não quando o amigo ou conhecido é um grande escritor. Meu caso, que sou conhecido, e imagino que agora já possa me considerar amigo, do escritor carioca Mariel Reis.

Meu contato com Mariel começou através deste singelo blog, quando ele me enviou um e-mail elogiando um artigo que eu havia escrito sobre Raul Brandão. A partir de então começamos a trocar algumas idéias, alguns contos e Mariel me disse que tinha um livro inédito de contos, o qual me enviou para ler e dar meu parecer. Como na época eu estava pesquisando para minha monografia no curso de especialização em literatura brasileira, fui deixando a leitura do livro de Mariel pra depois. Não sabia eu o que estava perdendo. Eu podia ter deixado um Alfredo Bosi pra depois, um Candido, um Stuart Hall.

O volume leva o título de John Fante trabalha no Esquimó (2008), e reúne 16 contos. Mariel aborda temas ligados à classe média brasileira, como solidão, a violência urbana, carência moral entre os membros da sociedade, e em vários dos contos se aproxima muito do escritor curitibano Dalton Trevisan. Mariel leva muito em consideração o espaço urbano, fazendo deste, um ambiente degradado, ocupado por párias e elementos marginalizados, como no conto A Gorda, que conta a aventura sádica de um garoto de programa com uma cliente extremamente gorda, repulsiva em sua imagem e em seu caráter.

Os segmentos de imagens que Mariel trabalha nessa narrativa sombria é de extremo bom gosto e mostra um escritor que domina perfeitamente a técnica do conto, que, sendo uma narrativa curta, tende a propiciar ao leitor uma tensão que está na iminência de acabar. Mas não acaba com o final, e isso torna o conto mais saboroso ainda.

Os contos de Mariel, além de mostrarem tipos estranhos e grotescos, também apresentam uma atmosfera fantástica, bem ao estilo de Murilo Rubião e Moacyr Scliar. O conto Jonas, a Baleia, ao mesmo tempo em que faz alusão ao profeta bíblico, faz alusão também à Metamorfose, de Kafka, pois nesse conto um jovem acorda transformado numa baleia. E o mais interessante, para confirmar que Mariel pratica também literatura fantástica, é que no final da narrativa, assim com Gregor Samsa, Jonas é visto dessa forma, e seu vizinho não estranha o fato de haver uma baleia no quarto e até considera o olhar do animal semelhante ao de Jonas, e dessa maneira o absurdo é aceito dentro do universo da ficção. É o que Todorov chama de sobrenatural aceito, em seu livro Introdução à Literatura Fantástica.

No conto A Viagem, mais uma vez Mariel encontra na violência urbana tema para sua narrativa. Mas não se resume a isso. Nesse conto há um narrador em primeira pessoa (outra característica de Mariel é oscilar muito o seu foco narrativo), que é um assaltante de ônibus num ambiente periférico no Rio de Janeiro, mas é um assaltante que tece considerações metafísicas sobre os atos criminosos que comete. Ele está cansado do trabalho que exerce, e quer parar. Esse conto é um exemplo de que a literatura de Mariel Reis não pode ser vista como pessimista, mas sim como realista, e até há uma pitada (contida, claro) de esperança.

Em todos os contos, ou em quase todos, Mariel além de construir personagens de personalidade forte e decadentes moralmente, também leva muito em consideração o espaço. O espaço em todo o livro é muito bem trabalhado, e em algumas das narrativas exerce influência direta sobre os personagens. Como acontece no conto O Prisioneiro, entre os melhores do volume. Há nesse conto referências diretas à sociedade e às suas mazelas, como o caso da violência e da superlotação dos presídios. O protagonista narrador, um presidiário que espera sua liberdade, é um indivíduo que já se acostumou à sua atual situação, e dessa maneira, é alguém totalmente assimilado ao meio ao qual pertence. Mesmo não querendo permanecer preso, não se sente capaz de retornar à sociedade e as considerações filosóficas que tece é de extrema beleza e profundidade.

O conto Por Mil Demônios é o maior exemplo de literatura fantástica que há no livro. É dividido em oito partes, e conta a história de uma moça que carrega em seu ombro esquerdo um demônio. Depois percebemos que o demônio carrega em seus ombros homúnculos. É uma metáfora sobre a conturbada relação interpessoal, pois todos estão (nesse conto) fadados a sucumbir aos próprios demônios e também aos demônios dos outros.

Em relação à técnica de Mariel nesse conto, é interessante apontar que há mais de um narrador, e com isso ele demonstra bom domínio da técnica narrativa. Mariel durante a composição da narração soube realizar as mudanças narrativas na hora certa, sem experimentalismos baratos e amadores. Há uma forte presença de um discurso polifônico nesse conto, que em muitos momentos exige atenção dobrada do leitor. Também há de se levar em consideração a presença de um narrador onisciente e onipresente, que narra mas não participa dos fatos narrados. É uma inteligente manobra de mudança do foco narrativo.

A opção pela narrativa auto-diegética (em primeira pessoa) dá ao escritor uma ferramenta a mais para trabalhar a construção de seus personagens (seu interior), pois o foco narrativo em primeira pessoa permite a exploração do fluxo de consciência. Junto com isso, há a opção de Mariel pela ausência de diálogos, fato que permite uma realização quase completa do fluxo de consciência. Esse fato se evidencia mais naqueles contos que têm como tema o espaço e o ambiente urbano.

Como um todo, Mariel Reis fez em John Fante trabalha no Esquimó um trabalho notável. Mesmo discordando de Mariel em algumas escolhas narrativas em alguns dos contos, seu livro é de extrema importância para o cenário literário atual, principalmente em relação ao conto, que estava precisando de um sopro de vida. Mariel Reis consegue isso. E assim, quem sabe, como no conto que dá título ao livro, não passemos a ver o rosto de Mariel em cada esquina do Rio de Janeiro, sempre à procura do autor preferido.


sábado, 19 de julho de 2008

OSTRACISMO LITERÁRIO I: Da progressão geométrica da estupidez ao naufrágio das ilusões



Diversos autores na história desistiram da literatura. Publicaram um ou mais livros e definitivamente desistiram da ficção. Caso de Raduan Nassar, autor de Lavoura Arcaica (1975), que depois da escrita dessa obra, nunca mais escreveu nada inédito. Publicou o romance Um Copo de Cólera (1977), livro escrito em 1970, e o volume de contos Menina a Caminho (1997), que reúne contos escritos entre 1960 e 1970, portanto, todas as obras que Nassar publicou depois de Lavoura Arcaica, foram escritas antes. É uma biografia no mínimo curiosa.

Outro autor que passou pela mesma síndrome da abstinência literária foi Carlos Heitor Cony, que depois de publicar Pilatos (1973), ficou 21 anos sem publicar ficção. Gabriel Garcia Márquez, Patrick Sussekind, Bruno Seabra (autor brasileiro do século XIX, totalmente esquecido, que publicou um único romance, Paulo), também são autores que de uma maneira ou de outra ficaram anos sem publicar ou simplesmente desistiram de fato da literatura.

No Brasil, talvez o maior exemplo de um autor que tenha desistido da literatura é Diogo Mainardi. Atualmente Mainardi publica semanalmente uma crônica na revista Veja, na qual aborda diversos temas do cotidiano brasileiro, principalmente sua aversão ao governo Lula. Mainardi, antes de escrever sobre política, publicou quatro romances: Malthus (1989), Arquipélago (1992), Polígono das Secas (1995) e Contra o Brasil (1998). Nesse texto escreverei, caro leitor, sobre os dois primeiros romances, e na sequência sobre os dois últimos.

Malthus é um texto experimental, nem tanto em sua forma, mas em seu conteúdo. Malthus apresenta ao leitor, normalmente perplexo, como escreveu Mário Sabino na orelha da segunda edição do romance, a progressão geométrica da estupidez. É um romance que não apresenta enredo linear e lógico, nem personagens reais. Parece que toda a ação é um delírio do protagonista Loyola y Loyola, que através de toda a narrativa dá golpes em diversos lugares diferentes, e assim não pára em nenhum deles.

O título do romance também causa estranhamento, pois não é um livro que fala sobre o economista do século XIX, mas Mainardi faz aqui uma fina e sutil alusão à sua teoria, que através das atitudes insensatas e grotescas dos personagens, como a D. Robalinho, os magistrados, Ovas Negrão, a colocam em prática, porém, é claro, às avessas. E dessa maneira o breve romance se encerra, sem um aparente significado lógico, mas cabe ao leitor, que deve ficar muito atento à narrativa, pois esta está repleta de armadilhas, descobrir o emaranhado de insensatez da condição humana, pois é disso que trata o romance. Em Malthus, ao mesmo tempo em que Mainardi atinge alto nível em sua narrativa, também peca pelo excesso de experimentalismo, fato que torna o texto maçante em determinados momentos.

Fato que não ocorre no seu livro Arquipélago, segundo romance da série, que apresenta um escritor muito mais maduro, dominando mais a técnica narrativa e muito mais erudito. Apesar do aparente tom de galhofa e deboche do romance, Diogo Mainardi constrói uma narrativa saborosa, à maneira de Swift e Voltaire. É um texto que faz alusão a autores que de certa forma, em determinados momentos de suas vidas, se encontraram em situações em que foram obrigados (ou não) a desembarcar em ilhas, como foi o caso de Rousseau, no verídico incidente na ilha de Saint-Pierre em 1765, Platão em Siracusa, São João em Patmos e Thomas More, mas More criou uma ilha imaginária em sua Utopia.

O romance é narrado em primeira pessoa, e o narrador-protagonista é um anônimo que juntamente com outros desabrigados encontra abrigo na cúpula de uma igreja, único ponto que não fora submerso depois do desmoronamento de uma barragem de uma usina hidrelétrica. A partir desse incidente o protagonista passa a ver em cada acontecimento do cotidiano na cúpula uma alusão a elementos da história ou da filosofia. Portanto, o protagonista se entrega a uma espécie de ócio criativo, e passa a analisar cada situação em que ele e os seus companheiros desabrigados se encontram, do ponto de vista filosófico de outros autores. E nessa viagem que ele se submete, e submete os outros, vai notando uma aparente falta de sentido naquilo que estão fazendo (alusão à vida real?) e ao passo em que o tempo vai passando, os desabrigados o elegem o legislador da ilha e imploram que o protagonista lhes imponha atividades sem sentido algum, apenas para terem o que fazer.

A narrativa se desenvolve em uma atmosfera onírica, como em Malthus, mas durante sua composição o autor alcançou um nível muito alto dentro da literatura brasileira, e fez de Arquipélago um exemplo de literatura da mais elevada qualidade. Entre alguns capítulos, Mainardi encaixa dentro do corpo do romance pequenos ensaios sobre os filósofos que o livro faz menção, falando assim das suas desventuras nas ilhas pelas quais passaram, ou criaram. E as atitudes do protagonista o levam, dessa maneira, a ser jogado no mar pelos desabrigados insurgentes, depois é deposto e substituído por outro líder, mas depois de tantos obstáculos, os desabrigados percebem que suas vidas não têm sentido se não o tiverem como líder. É uma alfinetada no mito que foi criado sobre grandes autores da história e o público leitor também, como pessoas vazias e sem pensamento próprio.

No final do romance o protagonista finalmente sai da cúpula numa jangada com outros desabrigados, e dessa maneira tentam alcançar terra firme, mas só o protagonista o consegue, pois os ouros, ao longo da viagem, foram padecendo de formas diversas. O último capítulo aqui é muito significativo, pois resume muitas considerações sobre o romance e sobre o título. Pulando de uma ilha para outra, o protagonista tenta encontrar um lugar que lhe sirva como fonte de análise filosófica e metafísica. Não encontrando nenhum lugar assim (na baía de Guanabara), diz o protagonista:

Ao sair da baía de Guanabara, iria seguir em direção ao norte, analisando uma a uma todas as ilhas que encontrasse. Não tinha nada melhor a fazer.

Dessa forma se encerra o ciclo do protagonista, mas agora está em terra firme, metáfora que pode indicar o amadurecimento de sua filosofia, e que talvez encontre as respostas que procura. As diversas influências dos filósofos (Rousseau, Thomas More, Platão) cada um simbolizado por uma ilha distinta da outra, dá sentido ao título do romance. É mais um arquipélago de idéias do que de ilhas. E é na busca por essas ilhas, ou por esse arquipélago, que o protagonista anônimo elabora a sua filosofia.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

O ESCAFANDRO E A BORBOLETA: A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER


Assistir a um bom filme é sempre uma experiência interessante, mas assistir a um excelente filme cult é uma experiência surreal. Me refiro ao filme francês O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon) de Julian Schnabel. O longa concorreu a quatro indicações ao Oscar e ganhou alguns prêmios em Cannes, como melhor diretor e o Grande Prêmio Técnico.

O protagonista, Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric), é um jornalista de 43 anos que sofre um acidente vascular cerebral e fica em estado vegetativo, podendo mexer apenas seu olho esquerdo. O início do filme mostra Jean-Do abrindo seu olho e os médicos falando com ele, mas durante os primeiros 30 minutos do filme seu rosto não aparece, e a visão que temos é a do próprio Bauby, aprendendo o sinal que as médicas ensinam a ele, que consiste em identificar as letras do alfabeto através de uma piscada para sim e duas para não. E dessa forma ele vai construindo palavras, sentenças e parágrafos completos.

A sensação do espectador é de tensão durante todo o filme. Muito dessa tensão se deve ao fato da paisagem ser fundamental para o significado da borboleta no título do filme, que indica e/ou sugere a sensação de liberdade, de leveza, pois o vôo da borboleta aqui remete à vontade de Bauby de se livrar do peso de sua existência (o escafandro) e o hospital no qual Bauby se recupera fica numa praia afastada na França, em frente ao mar. O ambiente para a sensação de submersão do escafandro se dá de maneira dramática quando Bauby se depara com a imensidão do mar diante de seu olho (seu olho direito fora costurado, pois não podia fechá-lo) e a sequência de imagens que segue é belíssima.

Diante de um quadro irreversível, Bauby em monólogos interiores irredutíveis, aceita sua realidade e constata que possui duas qualidades que não perdeu com o derrame: a permanência de sua memória e de sua imaginação. É nessa perspectiva que o filme alcança uma beleza rara, pois Bauby em vários momentos se imagina em diversos lugares em que esteve ou que gostaria de ter visitado, como na cena em que aparece em um restaurante com sua esposa em um verdadeiro banquete, que serve de metáfora antropofágica.

A evocação de sua infância com seu pai na estação de trem é de uma beleza incrível, mas no plano da memória, o fato mais importante é uma cena em que já adulto conversa com seu pai (Max von Sydow) enquanto Bauby o ajuda a se barbear, e nessa prática mantêm um diálogo que na memória de Bauby, tempos depois, se torna fundamental para a compreensão de sua situação, pois ele se dá conta que não pode voltar atrás e tentar uma espécie de reconciliação com o pai, e isso o tortura de maneira tão forte que o leva mais fundo ainda ao desespero.

A religião aparece no filme de uma forma controversa, pois Bauby era ateu, e sua amante, Inés, aparece no filme como católica fervorosa. Bauby chega a sentir repulsa por uma imagem da Virgem Maria que Inés comprara numa viagem que fizeram ao interior da França, e essa lembrança o invade de forma que em certo momento o faz rever alguns conceitos sobre divindade, mas o seu ateísmo predomina de forma tão forte, que o protagonista até zomba da suposta existência de Deus. A sua relação com a religião se aproxima da náusea sartreana, como aliás se aproxima todo seu modo de pensar e de agir, negando a existência de um ser superior e transferindo essa divindade celeste à própria condição do ser humano, que é pobre e mísera.

A jornada interior de Bauby é repleta por imagens fortes, cores, dores e por uma intensa vontade de viver, fato que mais uma vez o aproxima à náusea sartreana. Para o Existencialismo, além da natureza humana ser anulada por consequência da inexistência de divindade, tudo que vai contra à vida não faz sentido, portanto, seu atual estado deve ser breve e passageiro, e o contato com a palavra, que no caso dele não é a palavra escrita, mas mesmo assim é fonte de vida e de uma busca metafísica pelo seu significado.