terça-feira, 18 de novembro de 2008

MANUEL DA FONSECA E O NEO-REALISMO


Jayme Ferreira Bueno *



Manuel da Fonseca é um dos principais autores do Neo-Realismo português. Em Lisboa se radicara desde a época dos estudos secundários, depois dos quais frequentou, por algum tempo, a Escola de Belas - Artes, mas nunca esquecera de sua terra, o Alentejo, e de sua vila, como chamava Santiago do Cacém.

Destacou-se como poeta, contista e romancista. Publicou Rosa dos Ventos (poesia, 1940); Planície e Novo Cancioneiro, de Coimbra; Aldeia Nova (contos, 1942); Cerromaior (romance, 1943); O Fogo e as Cinzas (contos, 1951); Seara de Vento (romance, 1958); Poemas Completos (1958); Um Anjo no Trapézio (contos, 1968); Tempo de Solidão (contos, 1973); Crônicas Algarvias (crônicas, 1986). Reelaborou seus textos mais de uma vez, dando-lhes forma definitiva para a Obra Completa. (Poesia, 1941, na coleção (romance, 1943).

Excetuando-se os dois últimos livros de contos, de ambiência lisboeta, a obra de Manuel da Fonseca se trata de uma obra profundamente marcada pelo espaço físico e humano do Alentejo. Em íntima relação com sua produção literária, desenvolveu uma intensa militância social, política e cultural, tendo chegado a ser preso em 1965, por ter integrado o júri que premiou Luanda, de José Luandino Vieira.

Em 1925 publicou num semanário de província os seus primeiros versos e narrativas. Foi habitual colaborador em revistas literárias, como O Pensamento, Vértice, Sol Nascente e Seara Nova. Contestatório e observador por natureza, a sua escrita era seguida de perto pela censura.

NEO-REALISMO

Movimento literário que, assentado num compromisso político-social, uniu, na década de 40, uma geração de escritores que fizeram parte, entre outros, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Afonso Ribeiro, Joaquim Namorado, Mário Dionísio, Vergílio Ferreira, Fernando Namora, Mário Braga, Soeiro Pereira Gomes ou Carlos de Oliveira. O Neo-Realismo encontrou como elemento de divulgação de seus ideais literários e políticos, principalmente a revista Sol Nascente e o jornal O Diabo. Opunham-se dicididamente contra os intelectuais da revista Presença, que, segundo eles, encontravam-se fechados numa espécie de egotismo e esteticismo estéreis.

Formado no pensamento marxista, defendiam as concepções do materialismo dialético e rejeitavam a concepção inócua do socialismo utópico de que fora imbuído o romance realista oitocentista. Baseavam-se no romance norte-americano de Steinbeck, Caldwell ou Hemingway, e no romance brasileiro nordestino dos anos 30. Faziam, portanto, uma literatura de denúncia social e de intenção pedagógica, marcada pelo forte anseio de atingir a transformação histórica. É considerado marco inicial do movimento o livro de Alves Redol, Gaibéus, que é de 1940. Na poesia, surgiu a coletânea Novo Cancioneiro, publicada entre 1941 e 1942.

Manuel da Fonseca contribuiu com o Neo-Realismo tanto com textos em prosa com em poesia. Os poemas de Rosa dos Ventos, de 1940, os contos de Aldeia Nova, de 1942, e o romance Cerromaior, de 1943, são significativos para a consolidação do movimento em Portugal.

Manuel da Fonseca, mais tarde, saindo do Alentejo, deixa o espaço mítico, sobre o qual versam Cerromaior, Aldeia Nova e O Fogo e as Cinzas, e parte para a cidade grande, para descobrir novos caminhos literários. É quando produz Um Anjo no Trapézio, de 1968. Neste texto, segundo a crítica, o autor renova a sua arte de contar. Abandona os ambientes das pequenas praças, das feiras, das tabernas, povoadas de gente simples, mas que viviam com a dignidade, para precupar-se com aquela gente que vive nos becos e na imundície da cidade grande.

Aqui se inclui um fragmento do conto O Largo, com o qual Manuel da Fonseca inicia o livro O Fogo e as Cinzas, de 1951. O texto está impregnado de saudosismo e de linguagem poética:

Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta e uma rua que sobe para a Vila. O vento dá nas faias e a ramaria farfalha num suave gemido; o pó redemoinha e cai sobre o chão deserto. Ninguém. A vida mudou-se para o outro lado da Vila.


Jayme Ferreira Bueno* é professor de Literatura Portuguesa e publicou Távola Redonda: uma experiência lírica, que resultou da tese de doutorado em Letras na Universidade de São Paulo.

10 comentários:

Jayme Ferreira Bueno disse...

Olá, Daniel.
Na primeira postagem não estava a foto de Manuel da Fonseca. Agora, gostei de ver a figura simples e bondosa do grande contador de histórias do Alentejo.

André Luis Mascarenhas Osiecki disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Daniel Osiecki disse...

Ok, professor. Também gostei muito dessa foto. Mostra uma pessoa serena, madura. Como de fato era Manuel da Fonseca. Percebemos essas características em seus trabalhos. Uma pessoa extremamente humana.

Taninha Nascimento disse...

Oi, Daniel.


"Um Homem só não vale nada!".

Tal lema - sempre -será "revolucionário"...

Gostei muito do post.

Um abraço,
Taninha


Ah, teu blog está na minha lista, entre quinze, para PRÊMIO DARDOS (virtual).

Daniel Osiecki disse...

Obrigado Taninha. Esse texto é de Jayme Ferreira Bueno. Estudioso da Literatura Brasileira, o qual foi meu professor na graduação durante um ano. Prof. Jayme tem contribuido para o meu blog com vários textos de sua autoria. Obrigado pela consideração e continue visitando o blog. Um abraço.

Taninha Nascimento disse...

Olá, Daniel.

Eu fui conhecer de perto o blog do prof. Jayme e, estou encantada.
Me coloquei, inclusive, como seguidora.

A internet, sem dúvida alguma, é uma fonte preciosa de conhecimento - quando vamos aos lugares certos. Tenho dado sorte!

Eu, criei um blog novo: "No Rastro da Educação..." e, será uma honra para mim, poder colocar por lá,em qualquer tempo, alguma contribuição sua. Meu objetivo é trazer questões pertinentes ao Ensino Fundamental, Médio e Superior.

Fique à vontade por lá!

Forte abraço e parabéns pelas suas contribuições à Educação, através, também, de seu blog.

Forte abraço,
Taninha.

Ah! Queria saber se você conhece o livro "Tirando os Sapatos" - do rabino Nilton Bonder.
Pelo que li , no início de seu blog, o tema tratado ali será de seu interesse.

Daniel Osiecki disse...

Olá, Taninha. Obrigado pelas palavras. Com certeza o Prof. Jayme ficará muito satisfeito por sua visita. Quanto ao rabino Nilton Bonder, o conheço sim. Já li vários textos de sua autoria, mas esse livro em particular ainda não. Obrigado pela dica. Vou procurá-lo. Um abraço.

MERCIA disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
MERCIA disse...

gostei muito do conteúdo,mas poderia ser mais rico,pois as caracteristicas do autor está muito resumida.

Daniel Osiecki disse...

Mercia,se você se interessar, procure outro texto aqui no blog sobre o Manuel da Fonseca "Aldeia Nova - Uma Odisséia pelo Alentejo", lá analiso o livro Aldeia Nova, e talvez lá apareçam mais detalhes sobre sua obra.