quinta-feira, 10 de setembro de 2009

OS IRMÃOS KARAMÁZOV: ROMANCE-SÍNTESE


Durante os séculos XVII, XVIII e XIX muitos escritores europeus produziram os chamados romances em tomos. Caso de Émile Zola, Honoré de Balzac na França; Laurence Sterne, Jonathan Swift e Charles Dickens no Reino Unido; Eça de Queiroz em Portugal e Nickolai Gogol, Leon Tolstoi e Fiódor Dostoiévski na Rússia. É claro que vários outros autores de outras nacionalidades também publicaram obras grandiosas como os autores citados, mas as citações aqui são de cunho meramente ilustrativo.

A produção de obras em vários tomos era também, além de estilo formal, resultado dos tradicionais folhetins que eram publicados nos jornais, e assim garantiam a permanência e a fidelidade de leitores espalhados por toda a Europa. A receita da forma folhetinesca teve início na França, e em sua gênese o público era em sua maioria feminino e os temas abordados muito leves, pois foi uma criação dos românticos. Mas com o tempo a temática de escritores por toda Europa foi se espandindo e consquistando terrenos mais sérios, com temáticas sombrias, filosóficas e políticas.

O nome mais importante e curioso (talvez por sua conturbada biografia) foi Fiódor Dostoievski (1821 - 1881), russo de Moscou que durante toda sua vida manteve uma atividade literária produtiva e ativa. Sua obra inicial, Gente Pobre e O Duplo (1846), ainda não apresentava o vasto painel social, religioso e filosófico que o autor veio a desenvolver mais tarde em Memória da Casa dos Mortos (1861), Memórias do Subsolo (1864), Crime e Castigo (1866), O Idiota (1868), Os Demônios (1871), O Adolescente (1875) e Os Irmãos Karamázov (1880). Esta última considerada sua obra-prima, ou nas palavras do tradutor Paulo Bezerra, "um romance síntese".

Na composição de Os Irmãos Karamázov, Dostoiévski alcançou a sua plenitude literária tanto na forma quanto na temática. Na verdade, tentar atribuir uma temática à obra seria reduzir seu valor, pois nesse "romance síntese", todas as temáticas que Dostoiévski abordou em suas obras anteriores (de sua fase madura) são abordadas nesse relato sobre a família Karamázov. Os embates religiosos são muito discutidos aqui, tanto sua aceitação quanto sua negação (se Deus não existe tudo é permitido), os embates sociais, que são retratados basicamente entre a relação do patriarca Fiódor Karamázov e seus três filhos, Ivan, Dmitri e Alieksiêi, a corrosão moral da sociedade burguesa, sua derrocada e todas consequências que se mostram, em muitos aspectos, fatais.

O enredo de Os Irmãos Karamázov é até certo ponto banal. Mostra uma família esfacelada por consequência da falta de caráter, inconsequência e lascívia de seu patriarca que, desde tempos imemoriais, relegou o cuidado dos três filhos a um segundo plano. O romance é um painel da sociedade russa da segunda metade do século XIX, e a trama tem início, de fato, após as 400 páginas iniciais, quando o patriarca é misteriosamente assassinado por um dos filhos. Mítia (Dmitri) é levado preso e condenado a trabalhos forçados na Sibéria. Porém, em nenhum momento do romance o verdadeiro culpado é revelado, pois não há provas suficientes contra Mítia (mesmo ele sendo preso e condenado), nem contra Smierdiakov, o filho bastardo de Fiódor Karamázov, que numa das passagens mais interessantes do romance revela todo esquema para assassinar seu amo a Ivan, o primogênito. Mas não sabe-se se a revelação de Smierdiakov de fato ocorreu ou foi tudo fruto da mente confusa e debilitada de Ivan. Esse é outro fato que não se revela, pois no dia do julgamento de Dmitri, Smierdiakov se enforca e leva consigo uma das respostas de todo o mistério. Portanto, como pode-se observar, a trama gira em torno do crime e de seus suspeitos, como um romance filosófico policial. Mas é exatamente no painel que é retratado pelo autor que o romance atinge proporções muito maiores do que parece ter, e também em sua composição formal estilística e linguística.

Até então, o narrador que é anônimo e onisciente, traça o perfil de uma gama imensa de personagens que vêm e vão, conforme sua importância na narrativa. Fiódor Pavlovitch Karamázov era um homem obcecado pelo bem material, deixando inclusive seus próprios filhos passarem necessidades diversas por consequência de sua avareza. Fiódor Karamázov personifica toda uma Rússia que estava aderindo, aos poucos, um sistema capitalista completamente novo em seus domínios, que aqui é descrito pelo autor de forma imoral, insensata e altamente destrutiva.

Nada no romance é deixado à deriva, nada é por acaso. Quem conhece um pouco da biografia de Dostoiévski identifica facilmente muitas passagens de sua vida na leitura do romance. A própria inserção de personagens como Dmitri e Ivan Karamázov tem fundamento na realidade. A relação de Aliocha (Alieksiei) com as crianças é outro fator de extrema importância para a compreensão da narrativa, pois Dostoiévski tinha um apego muito grande pelas crianças, e isso é refletido nesse seu personagem. No posfácio da edição da Editora 34, do tradutor Paulo Bezerra, o tradutor cita Mikhail Bakhtin, que transcrevo aqui:

As personagens literárias são criaturas do mundo real, onde o escritor as pré encontra antes de transformá-las em figuras de ficção (p. 8 - posfácio).

Em muitos casos da literatura, se levarmos em consideração essa passagem de Bakhtin, a personagem real se sobressai à ficção, o que pode ser prejudicial à narrativa. Fato que não ocorre nas obras de Dostoiévski, principalmente em Os Irmãos Karamázov, pois o autor apenas tira as personagens da realidade, mas na composição ficcional, são transformadas, sofrem a metamorfose imposta pelo escritor.

4 comentários:

Mariel Reis disse...

Afiado. Parabens!

Daniel Osiecki disse...

Obrigado, Mariel.Valeu mesmo. Grande abraço.

Giuliano Quase disse...

Não entendi o porque da palavra incosequência do patriarca, mas tuas análises estão surpreendento, meu chapa.

Vamos escrever um sobre o copo de cólera?
Gosto muito de analisar aquele indivíduo colérico.

Daniel Osiecki disse...

Grande Giuliano, me refiro à inconsequência do patriarca como falta de discernimento mesmo, falta de juizo e, consequentemente, de caráter. Bicho, terei o Copo de Cólera, ainda não li. Mas a ideia me agrada, com certeza. Vamos escrever sim. Um abraço.