quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

OS TRÊS ÚLTIMOS DIAS DE FERNANDO PESSOA: UM DELÍRIO?


Muitos escritores já utilizaram a biografia de Fernando Pessoa e de seus heterônimos na ficção. Nomes como Amadeu Lopes, José Saramago, Antonio Tabucchi produziram ficção baseada na vida de Fernando Pessoa, mas o que mais chamou a atenção desses autores foi a vida de alguns heterônimos, como Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares, que são, de fato, os mais conhecidos.

José Saramago publicou em 1984 o romance O Ano da morte de Ricardo Reis , livro que narra o retorno de Ricardo Reis a Lisboa, depois do exílio no Brasil. O heterônimo, melancólico e soturno, contracena com o ortônimo (por mais que Pessoa também se considerasse um heterônimo) e envolve-se numa relação amorosa com Lídia. O romance gira em torno dessa relação e das vidas, naturalmente, de Pessoa e de Ricardo Reis, e do encontro entre heterônimo e ortônimo.

Antonio Tabucchi (1943- )é um professor italiano de Literatura Portuguesa na Universidade de Siena, é especialista na obra de Fernando Pessoa e também produziu ficção sobre Pessoa e sobre os heterônimos.

O livro Os três últimos dias de Fernando Pessoa - Um delírio (1994) é uma breve narrativa ficcionalizada sobre os dias finais de Fernando Pessoa no Hospital de São Luís dos Franceses, em Lisboa. O enredo, muito simples e convencional, gira em torno da ida de Fernando Pessoa para o hospital por consequência de uma crise hepática, e das visitas que recebe de seus heterônimos mais conhecidos: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares e António Mora.

Pessoa é retratado nesse livro como um ser decadente, totalmente entregue à uma espécie de delírio onírico no qual recebe todos esses fantasmas que não o atormentam, pelo contrário, vêm se despedir do ortônimo e deixar as "contas saldadas". E é nesse aspecto que Tabucchi peca, pois as biografias dos heterônimos são imensos paineis críticos da própria poesia de Pessoa, e o que Tabucchi faz nesse romance está muito aquém da obra pessoana (e incluem-se na obra pessoana todos os heterônimos).

Os diálogos entre Pessoa e os heterônimos são muito curtos, nada profundos, carentes de ideias mais filosóficas, o que acaba tornando o romance muito simples para quem é especialista em Fernando Pessoa. A narrativa dá a impressão que foi toda escrita através de colagens das biografias dos heterônimos, pois além dos diálogos soarem muito teatrais, falsos, mostram apenas o básico sobre cada heterônimo. E ainda há a questão do paratexto, que anuncia um delírio. De delírio o livro não tem nada, não há nada de onírico, não há loucura no personagem Fernando Pessoa, que pelo estado em que se encontrava, seria o mínimo.

Antonio Tabucchi demonstra nesse livro ser um ficcionista muito amador, ainda carente da técnica narrativa. Tabucchi quis demonstrar conhecimento sobre a obra pessoana, porém conhecer muito a obra pessoana como estudioso, não o torna apto a transportar esse conhecimento para a ficção. Seu texto pseudo-experimental é uma amostra de que escrever ficção apenas com repertório de teórico é prejudicial à ficção.

2 comentários:

Giuliano Quase disse...

o bicho, por acaso vc não está com um livro meu do lafetá?

Giuliano

Daniel Osiecki disse...

Não, cara. Não está comigo.Nunca peguei Lafetá contigo.